Skip to main content

UNGA81 | Um mundo em transformação

por Anabela Vaz Ribeiro, Diretora Executiva do UN Global Compact Network Portugal 

 

 

UNGA81 | Um mundo em transformação

Prioridades para os líderes empresariais

Da fragmentação geopolítica à ação coletiva: as principais mensagens da Semana de Alto Nível da 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas para as empresas.

A Semana de Alto Nível da 81.ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas (UNGA81), realizada em Nova Iorque, em setembro de 2026, decorreu num contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, conflitos persistentes, desafios económicos e uma crescente pressão sobre o sistema multilateral.

Sob o tema “Restoring trust, managing transformation: A United Nations that delivers for all”, os líderes mundiais debateram a necessidade de recuperar a confiança, reforçar a cooperação internacional e acelerar respostas aos desafios globais.

A mensagem transversal foi clara: num mundo cada vez mais interdependente, mas politicamente fragmentado, a capacidade de cooperar e transformar compromissos em resultados concretos é determinante.

Para as empresas, este contexto reforça a importância de integrar a sustentabilidade, a resiliência e a conduta empresarial responsável nas decisões estratégicas.

  1. O contexto político: recuperar a confiança num mundo fragmentado

O Debate Geral da UNGA81 evidenciou preocupações que ultrapassam os conflitos internacionais e colocam questões fundamentais sobre a capacidade de resposta das instituições multilaterais.

Entre as principais mensagens políticas destacam-se:

  • Multilateralismo e direito internacional: reforçar o respeito pelos princípios da Carta das Nações Unidas, a aplicação consistente do direito internacional e a confiança nas instituições.
  • Paz e segurança: intensificar a diplomacia, a prevenção de conflitos e a proteção dos direitos humanos num contexto de crescente instabilidade.
  • Reforma das instituições multilaterais: melhorar a representatividade, a eficácia e a capacidade de execução do sistema das Nações Unidas.
  • Desenvolvimento e financiamento: mobilizar recursos, reduzir desigualdades e ultrapassar os obstáculos financeiros à concretização da Agenda 2030.
  • Clima e transformação tecnológica: reforçar a cooperação internacional perante riscos que ultrapassam fronteiras e exigem respostas coordenadas.

Estas discussões revelam que a cooperação internacional enfrenta dificuldades precisamente quando os desafios globais a tornam mais necessária.

Neste contexto, os princípios universais das Nações Unidas continuam a constituir uma referência para a ação responsável dos Estados, das empresas e da sociedade.

  1. Os sinais para as empresas: da ambição à execução

Os encontros empresariais realizados à margem da Assembleia Geral, incluindo o UN Global Compact Leaders Summit e o UN Private Sector Forum, reforçaram a importância do setor privado na resposta aos desafios globais.

A mensagem não se limita à necessidade de assumir compromissos de sustentabilidade. O foco está cada vez mais na capacidade de os traduzir em decisões de investimento, modelos de negócio resilientes e resultados mensuráveis.

Destacamos seis tendências com particular relevância para as empresas portuguesas.

Sustentabilidade como fator de competitividade e resiliência

As alterações climáticas, a instabilidade geopolítica, as pressões sobre os recursos naturais e a transformação tecnológica estão a redefinir os riscos e as oportunidades empresariais. A sustentabilidade deve, por isso, ser integrada na estratégia de negócio e não tratada exclusivamente como uma função de reporte ou conformidade.

Transição energética, clima e natureza como prioridades de investimento

A aceleração da transição energética, a segurança energética, a adaptação climática e a proteção dos recursos naturais exigem investimento, inovação e cooperação. Água, biodiversidade e resiliência territorial assumem crescente importância para a continuidade das operações e das cadeias de valor.

Financiamento orientado para a concretização

Mobilizar capital é indispensável, mas não suficiente. A capacidade de desenvolver projetos credíveis, financiáveis e escaláveis será essencial para transformar planos de transição em resultados concretos. As instituições financeiras têm um papel determinante na ligação entre as necessidades de transformação dos setores económicos e as soluções de financiamento.

Cadeias de valor mais responsáveis e resilientes

A gestão dos riscos ambientais, sociais e de governação estende-se progressivamente às relações com fornecedores, clientes e parceiros. As políticas de compras e as relações comerciais tornam-se instrumentos estratégicos para promover direitos humanos, trabalho digno, descarbonização e integridade.

Inteligência artificial responsável

A rápida adoção da inteligência artificial exige mecanismos de governação adequados, capazes de assegurar transparência, supervisão humana, responsabilização e respeito pelos direitos humanos. A transformação digital deve ser acompanhada por uma cultura de integridade e confiança.

Ação coletiva para superar desafios sistémicos

Muitos dos desafios empresariais atuais não podem ser resolvidos individualmente. A gestão da água, a descarbonização de setores económicos, a integridade nas cadeias de valor e o desenvolvimento de competências exigem colaboração entre empresas, instituições financeiras, entidades públicas e outros parceiros.

 

  1. The Leadership Agenda Emerging from UNGA81

Sete prioridades para a gestão de topo

A leitura conjunta do contexto político e das mensagens empresariais da UNGA81 permite identificar sete prioridades que merecem atenção dos Conselhos de Administração e das Comissões Executivas:

  1. Manter os princípios universais como referência estratégica. Assegurar coerência nas decisões empresariais, mesmo perante divergências políticas e regulatórias entre mercados.
  2. Integrar a geopolítica na gestão de risco. Antecipar os impactos dos conflitos, das tensões comerciais, das alterações regulatórias e da instabilidade internacional nas operações e nos investimentos.
  3. Colocar a resiliência no centro da competitividade. Reforçar a segurança energética e hídrica, a capacidade de adaptação climática e a robustez das cadeias de abastecimento.
  4. Transformar compromissos de sustentabilidade em investimento. Desenvolver projetos concretos, credíveis, financiáveis e com resultados mensuráveis.
  5. Assegurar uma governação responsável da inteligência artificial. Integrar a ética, a transparência, os direitos humanos e a responsabilização nos processos de transformação digital.
  6. Reforçar a responsabilidade nas cadeias de valor. Utilizar as relações comerciais e as políticas de compras para promover práticas empresariais responsáveis.
  7. Investir na ação coletiva. Participar em plataformas e parcerias capazes de mobilizar recursos, partilhar conhecimento e acelerar soluções para desafios comuns.

Estas prioridades não representam novas obrigações decorrentes da Assembleia Geral. Constituem uma leitura estratégica das tendências internacionais e das suas implicações para a liderança empresarial.

Num contexto de maior fragmentação geopolítica, os Dez Princípios do UN Global Compact, nas áreas dos direitos humanos, práticas laborais, ambiente e combate à corrupção, oferecem às empresas um referencial universal para orientar decisões e promover uma conduta empresarial responsável.

A sua relevância não depende das circunstâncias políticas ou da evolução de quadros regulatórios específicos. Assenta no compromisso com princípios internacionalmente reconhecidos e na convicção de que empresas responsáveis contribuem para economias e sociedades mais resilientes.

O UN Global Compact Network Portugal continuará a promover a capacitação, o diálogo e a ação coletiva, aproximando as prioridades globais dos desafios concretos das empresas portuguesas.

Através das suas iniciativas e plataformas de colaboração, procuramos contribuir para transformar compromissos em ação, reforçando a ligação entre sustentabilidade, competitividade, financiamento e criação de valor.

Num mundo mais fragmentado, a sustentabilidade é também uma estratégia de confiança, competitividade e resiliência.

A UNGA81 recordou-nos que os grandes desafios globais estão profundamente interligados e que a sua resolução exige cooperação, liderança e capacidade de execução.

Para as empresas, o desafio é claro: preservar princípios, antecipar riscos, mobilizar investimento e colaborar na construção de soluções.

Mais do que responder à incerteza, importa construir organizações capazes de criar valor sustentável num mundo em transformação.

 

Fontes e leituras recomendadas

  • United Nations — 81st Session of the General Assembly, General Debate.
  • United Nations — Intervenção do Secretário-Geral António Guterres na abertura do Debate Geral.
  • UN Global Compact — Uniting for a Better World: What UNGA81 Means for Business (30 de setembro de 2026).
  • UN Global Compact — Leaders Summit 2026 e UN Private Sector Forum 2026.

Subscreva a newsletter

A UN Global Compact Network Portugal (UN GCNP) é a rede portuguesa do United Nations Global Compact (UNGC), que reúne os participantes da iniciativa com sede ou operações em Portugal.


Contactos |  Politicas de Privacidade

Desenvolvido por webiton